A Raposa

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Em meio a toda aquela bagunça de sangue, pêlos e pedaços de animais, o velho cão que guiava o bando de caça ouviu um som bem familiar aos seus velhos ouvidos, quase incapazes de destinguir o que era, mas experientes o suficiente para evitar que os novatos chegassem. Se afastou do bando principal e localizou o regougar de um filhote de raposa debaixo dos corpos de várias adultas. Olhou aquele ser minúsculo e indefeso, quase irreconhecível meio que afogado em sangue. Seu coração venceu o instinto natural e levou aquele resto de bicho pra casa.


Dois dias depois da caçada, um dos novatos achou aquele bichinho magrelinho envolto nos panos da caixa do avô. Aquele saquinho alaranjado de ossos correu o quanto pôde mas o cão era mais rápido. Prestes a tomar uma bocada se encolheu no chão esperando a morte quando sentiu um peso terrível sobre seu corpinho. “Cadê os dentes? Será que me engoliu sem mastigar?” Quando a luz voltou aos olhos da raposinha, uma lambida terminou o fardo do despertar. 70 cães olhando com nojo e respeito aquele que a despertou. O vovô que nunca teve uma cria adotou uma raposa.

– Levanta a cabeça bichinho. – ela olhava timidamente para o cão velho a sua frente – Seu nome vai ser Silvia, porque eu te tirei da selva, mas do bando só eu posso te chamar assim, entendeu bichinho? – a raposinha acenou com a cabeça – Ótimo.

O cão velho deu três passos à frente e latiu ao alto pra todos os cães ouvirem:

– 70! – todos os cães se posicionaram respeitosamente – A partir de hoje esta é minha filha e se alguém honra este bando ninguém vai tocar nela para mal, entenderam? Para vocês o nome dela é Júlia* pois de um modo ou de outro vão ter de reconhecê-la como minha cria. O velho Júpiter dá o decreto agora para até o último que restar do bando. – mesmo desgostosos, esfregaram o focinho no chão, como era de costume para reconhecer autoridade entre eles.


Silvia crescia sempre perto do avô, pois tinha medo dos companheiros de bando. À medida que iam se multiplicando, mesmo continuando como o bando dos 70, os primeiros ensinavam os mais novos a rejeitar Silvia indiretamente, ou a caçoar de sua discrepante diferença do bando. A contragosto de Júpiter, em sua frente a chamavam de Júlia, mas longe do velho era conhecida como Æmilia**, nome bem conhecido por ela, mas evitava problemas fingindo não ouvir. Ninguém se contrapunha a ela, mas também ninguém a ajudava. Para melhorar a situação, o avô já era de idade avançada quando a adotou. Os dias de Júpiter estavam cada vez mas próximos do fim e era essa incerteza do futuro que assombrava Silvia.

*Júlia: felpuda, fofa, peluda, filha de Júpiter;

**Æmilia: rival, aquela que quer ser igual.

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